Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

Ano novo e outros clichés




Ano novo, vida nova... acho que você, leitor, mais do que eu, deve estar cansado desse clichê. O ano novo não traz nada de espetacular. Os carros ainda não podem voar. Os humanos também não. A tecnologia avança e nós estamos cada vez mais conectados ao virtual e cada vez mais desconectados ao mundo real. E a tendência é só piorar, gradualmente, óbvio. Nada acontece de repente. Agora a frase velha continua repetindo que a mudança de calendário trará alguma coisa nova para a nossa vida? Por quê?

Está a vista que o próximo ano é apenas arauto de dificuldades. No âmbito económico mais do que nenhum outro. A política está uma merda, como a economia nacional. O país está afundando e está levando o seu povo com ele. Todos estão alarmados. Creio que até apreensivos demais para serem positivos e acreditar que 2012 trará um começo. Eu acho que tudo o que 2012 trará será o fim - o fim da vida boa e fácil que levávamos no já há muito tempo ido 2009.

Como viram, até as coisas ruins demoram a acontecer. Esse efeito dominó - vulgarmente conhecido como crise - iniciou-se em 2008. E ainda agora está a ter as suas piores repercussões. Agora em 2011 tudo o que se ouvia era a Troika, no ano anterior, as medidas de austeridade. Pelos vistos, os anos novos trazem somente termos novos para nomear o (des)serviço já velho do governo.

E a vida não muda grande coisa. Claro, com esse show de má qualidade dirigido pelos irresponsáveis no poder, os nossos bolsos ficam indiscutivelmente mais vazios. Mas você continua sendo a mesma pessoa que sempre foi, apesar dos calendários. Quero dizer que o seu cabelo não vai ficar rosa às doze badaladas da meia-noite do dia 31. Você não vai ficar super alto de uma hora para a outra, nem bombadão, nem ilusoriamente bonito. Sinto muito. Eu também queria o superpoder de ficar superinteligente para não ter que estudar para os exames, mas as coisas não são (nada) assim.

E de igual forma, você provavelmente continuará com os mesmos hábitos do ano anterior. Sabe aquela listinha que você escreve todos os anos, dizendo que este ano você será fiel à sua dieta? Pois é, se você não foi capaz de seguir com essa promessa nos anos anteriores (e já se passaram quantos? Quinze? Vinte? Quarenta?), você realmente crê que desta vez, você está falando sério? Existir está difícil, não é?

Não que eu queira desmanchar todos os vossos planos para o promissor ano de 2012 (ah, viram o filme? Maias trolls...). Não que eu queira piorar os já danificados pensamentos sobre o que nos reserva. Mas é que, sinceramente falando, se tivemos 365 dias para corrigir os nossos erros, para desmanchar um fracasso e transformá-lo em um sucesso, se tivemos 365 dias para recomeçar, é porque o calendário muda que faremos isso? Por que não precisamos de um ano novo para nada disso. Para decidir mudar, só um dia basta. Acordar é a oportunidade de um recomeço, afinal. Respirar é símbolo de vida nova.

Neste ano novo, não quero desejar vida nova para vocês. Quero sim, desejar força, mas a partir de agora, dia 29. O amanhã pode ser um dia difícil para você, mas você pode superar isso não porque 2011 termina e 2012 começa, não porque você será capaz de encontrar a solução para os seus problemas num passo de mágica, não porque você conseguirá mudar rapidamente, mas porque cada segundo que passa é uma nova oportunidade de viver. E de acertar (que o governo leia isso!).

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