
Provavelmente, não era a casa mais bonita do mundo. A casinha de dois andares, na rua das cerejeiras, destacava-se apenas por sua cor amarela, pela árvore anã e pelas flores coloridas que, na Primavera, pareciam querer competir com as recém-floridas sakuras. Também, possivelmente, não seria uma competição justa para as habitações de Keith ou de Cedric, ambos os donos de grandes mansões rigidamente desenhadas por arquitectos famosos, monstruosidades de pedras que tão inconvenientemente eles chamavam de lar. De facto, estou convencida de que aquela casa não tinha nada de fantástico.
Tinha sido comprada por uma pechincha. O preço do lugar onde vivia anteriormente – um recinto que apesar de mal recordar, sei que não era muito maior – cobriu todas as despesas e nos sustentou nos seguintes dois anos em que Katsu ficou sem trabalho. Apesar de ser ainda criança e de estar entorpecida com os meus próprios problemas – preocupada em odiar Katsu, a casa, as brutais circunstâncias que tiraram meus pais de mim – não era tola nenhuma a ponto de acreditar que estava tudo bem, como ele insistia sempre em dizer.
Katsu era muito feliz, como aquela casa. O meu eu de oito anos não estava pronta para aquela felicidade ainda. As cores claras, arautos de boas-novas e de um futuro – ou presente – de luz, eram mensagens que martelavam em minha mente como um injusto mau agoiro. A simplicidade do design da casa – prática e confortável, como uma casa realmente deve ser – de alguma forma atormentava-me. Juro que não poucas vezes ouvi as paredes do meu quarto sussurrar que tudo era de mais para mim, que toda alegria que envolvia toda a habitação num abraço celestial teria de me ser vedada por não ter compartilhado do mesmo destino que meus pais.
O pensamento assombrou-me por um ano e meio, depois da mudança, sendo reavivado toda a vez que abria a porta e entrava no pequeno hall, sempre apertando uma alça da mochila e olhando dos sapatos para as pantufas na sapateira, tudo para desviar-me do sorriso alegre e ridiculamente aberto de Katsu. Ele tinha que falar «bem-vinda» tão alto, tinha que sorrir tanto, tinha que, para isso, usar o avental rosa florido e prender seus longos cabelos lisos e negros com meu laço? O apertado hall já tinha o seu cheiro, um cheiro adocicado e enjoativo que me perseguia durante o restante do dia – e mais tarde, a vida toda. Depois de certo tempo, comecei mesmo a alucinar que ele sempre estava lá, fazendo a vénia de boas-vindas com seu sorriso colossal.
Quem sabe se não foi essa alucinação que me fez acostumar com sua presença. Katsu estava por todo o lado, passei a sentir necessidade de vê-lo quando descia as escadas e contornava os móveis até à cozinha, fazendo panquecas. Ou trazendo chá para mim e para os meus amigos no único cômodo amplo da casa, que era a sala, e onde grande parte da minha história desenrolava-se, bem ou mal.
Ele era ridículo, alegre, e simples, de aura colorida.
Já não consigo sentir a mesma agonia que antes, ou até mesmo compreendê-la, talvez porque o amor que sinto por Katsu esteja tão enraizado que torne impossível ressuscitar o ódio inexplicável que experimentava em criança. O tempo dissipou minha culpa e medo, substituiu-a pela dependência do sentimento caloroso que o domicílio e Katsu emanavam. E antes que pudesse perceber, tudo estava certo, como ele tão irritantemente dizia. O chão que reluzia de tão limpo, as paredes claras que sussurravam, a pequenez da casa que nos abraçava e confortava. Tinha começado a adorar tudo, inconscientemente.
Suponho que se hoje ainda consigo lutar, ou melhor, se ainda não enlouqueci com a insanidade que é a minha vida actualmente, é porque sempre que fecho os olhos consigo imaginar a rua coberta de cerejeiras, o portão pintado de preto que rangia, o pequeno caminho até a simples casa amarela. Quase vinte anos após a morte de Katsu, consigo ainda vê-lo com seu sorriso ilícito gritando «bem-vinda».
E admito que não sei mais quem é Katsu nem o que é a casa. Os dois emaranharam-se. Os dois são um só. Destruídos pelo tempo, vivem somente na minha memória.
Tinha sido comprada por uma pechincha. O preço do lugar onde vivia anteriormente – um recinto que apesar de mal recordar, sei que não era muito maior – cobriu todas as despesas e nos sustentou nos seguintes dois anos em que Katsu ficou sem trabalho. Apesar de ser ainda criança e de estar entorpecida com os meus próprios problemas – preocupada em odiar Katsu, a casa, as brutais circunstâncias que tiraram meus pais de mim – não era tola nenhuma a ponto de acreditar que estava tudo bem, como ele insistia sempre em dizer.
Katsu era muito feliz, como aquela casa. O meu eu de oito anos não estava pronta para aquela felicidade ainda. As cores claras, arautos de boas-novas e de um futuro – ou presente – de luz, eram mensagens que martelavam em minha mente como um injusto mau agoiro. A simplicidade do design da casa – prática e confortável, como uma casa realmente deve ser – de alguma forma atormentava-me. Juro que não poucas vezes ouvi as paredes do meu quarto sussurrar que tudo era de mais para mim, que toda alegria que envolvia toda a habitação num abraço celestial teria de me ser vedada por não ter compartilhado do mesmo destino que meus pais.
O pensamento assombrou-me por um ano e meio, depois da mudança, sendo reavivado toda a vez que abria a porta e entrava no pequeno hall, sempre apertando uma alça da mochila e olhando dos sapatos para as pantufas na sapateira, tudo para desviar-me do sorriso alegre e ridiculamente aberto de Katsu. Ele tinha que falar «bem-vinda» tão alto, tinha que sorrir tanto, tinha que, para isso, usar o avental rosa florido e prender seus longos cabelos lisos e negros com meu laço? O apertado hall já tinha o seu cheiro, um cheiro adocicado e enjoativo que me perseguia durante o restante do dia – e mais tarde, a vida toda. Depois de certo tempo, comecei mesmo a alucinar que ele sempre estava lá, fazendo a vénia de boas-vindas com seu sorriso colossal.
Quem sabe se não foi essa alucinação que me fez acostumar com sua presença. Katsu estava por todo o lado, passei a sentir necessidade de vê-lo quando descia as escadas e contornava os móveis até à cozinha, fazendo panquecas. Ou trazendo chá para mim e para os meus amigos no único cômodo amplo da casa, que era a sala, e onde grande parte da minha história desenrolava-se, bem ou mal.
Ele era ridículo, alegre, e simples, de aura colorida.
Já não consigo sentir a mesma agonia que antes, ou até mesmo compreendê-la, talvez porque o amor que sinto por Katsu esteja tão enraizado que torne impossível ressuscitar o ódio inexplicável que experimentava em criança. O tempo dissipou minha culpa e medo, substituiu-a pela dependência do sentimento caloroso que o domicílio e Katsu emanavam. E antes que pudesse perceber, tudo estava certo, como ele tão irritantemente dizia. O chão que reluzia de tão limpo, as paredes claras que sussurravam, a pequenez da casa que nos abraçava e confortava. Tinha começado a adorar tudo, inconscientemente.
Suponho que se hoje ainda consigo lutar, ou melhor, se ainda não enlouqueci com a insanidade que é a minha vida actualmente, é porque sempre que fecho os olhos consigo imaginar a rua coberta de cerejeiras, o portão pintado de preto que rangia, o pequeno caminho até a simples casa amarela. Quase vinte anos após a morte de Katsu, consigo ainda vê-lo com seu sorriso ilícito gritando «bem-vinda».
E admito que não sei mais quem é Katsu nem o que é a casa. Os dois emaranharam-se. Os dois são um só. Destruídos pelo tempo, vivem somente na minha memória.
0 comentários:
Enviar um comentário