Bem, todo mundo tem o seu jeito de lidar com os problemas. E com aqueles dias ruins. Alguns bebem. Outros gritam com os infelizes que cruzam seus caminhos. Outros comem. Outros deitam as tripas para fora. E outros decoram a programação da TV a cabo.Eu costumo escrever e encher minha mente com problemas que nada têm a ver comigo. É simples, é prático. Mais útil do que assistir um monte de filme e série americana admitindo que é uma baboseira que só. Eu passo horas a fio teclando no Word ou no Wordpad... Criando problemas para as minhas personagens porque esses sim, eu consigo, definitivamente, resolver.
Quando eu tenho problemas, eu desejo mais ardentemente do que nunca escrever meu próprio destino. Traçá-lo e moldá-lo à minha maneira. Forçar o diálogo alheio. Inventar as circunstâncias. Criar uma problemática apenas para que a história tenha emoção e aventura. E solucionar as coisas com romance ou muita determinação.
Infelizmente, quanto mais tempo passa, mais eu me apercebo que a vida, mesmo que seja feita por escolhas, é algo aleatório. Nós não escrevemos os nossos contos; outra pessoa o faz. A nossa família, os nossos amigos, os nossos inimigos. As pessoas que nos rodeiam moldam as nossas circunstâncias. Desde que nascemos, porque, olhe, o nascimento é decidido egoisticamente por duas pessoas que creem ser capazes de nos dar vida. E quando crescemos continuam o fazendo, decidindo futuros romances, educação, empregos, cultura...
Quem nós somos, por exemplo, não é algo que nós decidimos sozinhos. Por que o clichê quem eu sou também é quem é minha família, meus amigos, meus rivais, meus chefes, meus professores, meus colegas... Vai muito além do nosso nome e das nossas características: sou feliz! Sou triste! Sou legal! Sou maçante!
E então nossa história é escrita por todo mundo, com uma percentagem relativamente baixa de nossa autoria. Nós não nos criamos. Nós não nos intitulamos. Nós não decidimos as circunstâncias da história. Nós não temos direito a planear o rascunho. Dão-nos tudo pré-pronto. E às vezes, mal pronto. E com indiferença, dizem-nos: se vira. Você tem x anos para terminar essa história!
Com o que nos dão, decidimos juntar os pontos e narrar a história da vida. Nem sempre é interessante. Nem sempre é um bom livro. Por vezes, é tão chato quanto uma monografia. Por vezes, tão bom quanto um romance lido nos rigores do Inverno. A verdade é que é um livro tão inconstante que é difícil classificá-lo. E também, difícil de continuar.
Mas se você não continuar, alguém o fará por você. O que é irritante. Por que quando, por fim, o seu livro for terminado e publicado, na capa não terá escrito o seu nome em letras douradas. Será um anónimo por ter sido escrito por tanta gente que ninguém mais sabe quem realmente o fez. E então esse livro que com tanto trabalho árduo foi escrito, cairá no esquecimento sem sequer uma nota académica.
Só que um bom escritor dá um jeito até no pré-pronto, queridos! Lembrem-se: se você quer algo bem feito, fá-lo você mesmo. Nankurunaisa.
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