Sexta-feira, 29 de Abril de 2011

O Amigo Colorido





Se ela bebesse, e se naquele momento estivesse num balcão do bar, certamente estaria falando dele para o garçom. Era curioso, divertido, até, a forma que ele aparecera e sumira de sua vida ― ele era uma lembrança boa, talvez a única lembrança boa de um homem que tinha. Aquele garoto alto e esguio do interior com sorriso de playboy. Céus! Era só lembrar dele que sorria, feito boba.

Nunca tinham sido nada, o que era bom. Sempre detestava seus namorados assim que a relação chegava ao fim, mesmo aqueles que não lhe fizeram nada aparente. Era um sentimento automático. Mas aquele garoto... ah, aquele garoto! Gostava de verdade daquele garoto, de graça, aliás, quase incondicionalmente. Tinha que ser aquele olhar penetrante dele. Ou aquele seu sorriso malandro. Ou seu beijo, porque seu beijo era incrível. Ou talvez fosse apenas a sua simplicidade, ele era um bom garoto... bem, pelo menos, agia como um.

Ahh, quem se importava? Aquela amizade colorida tinha durado tão pouco tempo... mas ainda era o bastante para que ela risse interiormente com tudo o que tinha acontecido. Inclinou a cabeça até que se encostasse à cama, enquanto a música de James Blunt inundava o quarto. A culpa devia ser da música, droga, a voz do inglês a embriagava e ficava pensando coisas estúpidas. Mas por que não? Por que não lembrar-se dele? Do primeiro beijo, que teve um gosto estranho de banana e rebuçado de morango? Por que não lembrar-se dos filmes com os amigos que eram apenas uma desculpa para vê-lo... e obrigá-lo a trazer pipocas?

Ela soltou uma risada. Estava tão tarde, não convinha fazer tanto barulho, os vizinhos reclamariam. Foi naquele dia... ela lembrou-se, enrolando o cabelo no dedo, aliás, naquela noite de jogo de futebol na escola... que ela decidiu-se. Já gostava dele, mais do que devia, e não estava muito disposta a sofrer por causa daquele garoto bonito do interior. Porque não era do seu feitio deixar que os homens a controlassem. Então, quando viu que ele estava distante, afastou-se mais do que ele. De fininho, ele mal sentiu, nem ela. E então as SMSs pararam. E então eles sumiram da vida um do outro.

Viu-o algumas vezes depois disso, estava namorando, já. Era tão estranho, mas tão bom ao mesmo tempo. Sabia que estava se vingando do garoto com o namorado, o namorado era apenas um peão no seu jogo de xadrez tão friamente calculado. Adorava ver seu olhar, era de quem pedia explicações, de quem estava com ciúmes, de quem estava machucado, tudo ao mesmo tempo. Ela nunca lhe deu explicações nenhumas. O cumprimentava com um sorriso nos lábios, sempre escorregadia como uma gata, as falas deixadas no ar, assim como eles os dois foram deixados no ar, vagando, para nunca mais se encontrarem. E ele ainda era chamado de «querido».

Ela espreguiçou-se, apoiando agora os cotovelos nos joelhos, um sorriso matreiro nos lábios. Depois que já não eram amigos coloridos, depois que os dois já se tinham perdido, teve um dia que ficou marcado em sua mente. Ela estava com o namorado-peão, assistindo um filme com os amigos do namorado-peão, quando ele chegou. Seus olhares cruzaram-se, e ela viu que ele estava com ciúmes, ou raiva ― nunca entendeu direito. Ele foi-se embora rápido. E uma parte do seu coração riu. E a outra se destroçou, querendo ir atrás dele.

Só que ela nunca foi ― e nem iria, também. Agora ele é chamado de querido por outra pessoa... pouco lhe importava. Se o visse outra vez, o chamaria de querido do mesmo jeito. O seu querido amigo colorido que beijava extraordinariamente bem. E que era um bom garoto. Apesar de quase lhe ter partido o coração e ela ter-lhe retribuído o favor.

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