
Às vezes, uma simples ida à faculdade revela-se um obscuro pesadelo. Porque, olhem, não sou uma pessoa muito matutina. De facto, gosto muito, muito mesmo de dormir, especialmente daquele soninho gostoso da manhã. E interromper meu sono às cinco e meia da manhã (ou da madrugada, como preferirem) para aventurar-me na correria estressante que é viver/estudar na capital, nem sempre é apelativo.
Para começar, porque os velhinhos insistem em sentar-se ao meu lado na poltrona do comboio, obstruindo a passagem? Parecem que fazem de propósito. Suas conversas altas e lamentos diários atrapalham meu sono, e nem sequer se desculpam pela santa inconveniência, a qual de santa não tem nada. Depois, fazem questão de não se mover do lugar quando precisamos sair, então somos obrigados a atravessar joelhos e pisar pés, tendo que nos equilibrar enquanto o transporte se movimenta tortuosamente, tendo que pedir desculpa - sem que na verdade seja nossa culpa -, além de ter que ouvir os resmungos mal disfarçados e ver olhares assassinos. Ah, droga de velhos!
Antes de prosseguir, e antes que me acusem de insensível e desrespeitosa, digo, em minha legítima defesa, que amo meus avós e mais de duas dúzias de gente da terceira idade. Mas quando se vive tantos anos em Portugal, meus amigos, acaba aprendendo certas coisas, como:
1) idosos não são legais;
2) idosos não são educados;
3) idosos fazem de tudo para fazer de sua vida um verdadeiro inferno.
E de inferno, basta o metro em horário de ponta. Ainda tenho a sorte de apanhá-lo na linha de origem, e assim, com sorte e pontapés, conseguir o raro lugar sentado, ao invés de ser espremida como sardinha em lata (coisa que não poucas vezes acontece, ainda assim). De qualquer das formas, o difícil é ter que trocar de linha e ir contra a multidão que anda pisando no ovo. E em tempos de greve, queridos, em que teu comboio se atrasa quinze minutos, precisas da tua pausa para um café corrido, e restam-te poucos minutos para o início da aula, tempo é ouro.
Isso não significa que a manada acelera o passo. Significa que perco o metro e fico quatro minutos sentada, mordendo o lábio, e, ao menos, tentando ver algum japinha bonito para me distrair até que venha outro comboio. E significa que chego à faculdade um minuto antes da hora, preciosos sessenta segundos em que ligo meu computador e arrumo minhas coisas, até que o professor chegue e um membro da matilha corra furiosamente até ele, com seus dentes e garras afiados, pronto para dar o bote, e atrasa o começo da lição por cinco minutos.
Bem, para quê censurá-la e todas as outras que apenas participam no intuito de chamar-lhe a atenção? Ele até que é uma gracinha de nerd. Só que suspeito que seja gay.
Enfim, enfim.
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